25/12/2006

aprendiz de viajante





Um dia li num livro: « Viajar cura a melancolia».
Creio que, na altura, acreditei no que lia. [...]
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes - e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, presiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação. [...]
Avencei sempre, sem destino certo. [...]


Aprendiz de Viajante
in Medo, Al Berto



Modelo: Rui Alberto

Sud Express, algures muito perto do Entroncamento.

29/11/2006

27.11.2006

sabia do sentido das palavras em si
noite
é sempre noite na cidade agora que o
movimento se cristaliza
em parede de papel
o instante ou o detalhe o mesmo homem em
movimento
subterrâneo
as escadas implicam acção repetida
vezes sem conta
sem nome
todas as caras são assim agora é sempre noite
noite
repito-o e repito-te em mais um teste à minha
perseverança
esgotada
num movimento invísivel que cola a parede ao
chão e um tecto que não há




palavras de m. tiago paixão
inédito, 2006

28/11/2006

MASQUERADE


7 Dezembro 2006
Quinta feira, 16h. Bloco 1 (Estudos Portugueses) da FCSH.




("para Amurada", in MASQUERADE, 2006)
instalação fotográfica de ana sophia pereira

SOMBRA DO AMOR





Da paixão pelos livros e do gosto de criar algo, surge a Sombra do Amor - Edições, uma pequena editora que quer ocupar um espaço no «nicho alternativo» do mundo da edição de livros.

Somos independentes, do nosso lado temos a liberdade aliada à vontade de dar vida as palavras (e não só) que se escondem em folhas soltas guardadas em gavetas.

O objectivo principal é editar o que gostamos, é dar valor ao autor e à sua obra.





contactos:
geral
sugestões, críticas a afins

manuscritos
recepção de originais

27/11/2006

CESARINY


in memoriam Mário Cesariny de Vasconcelos. 1923-2006

ELLE - NOIR

III



nessa distância tão próxima de uma tarde fria de Inverno, nesse fogo vazio das grandes cidades,
perdidas entre pessoas e filmes, respondias-me em sinais ou suspiros perdidos.


roubo-te o espaço, roubo-te o ar e regresso a ti a cada volta e a cada volta dou-te um pouco mais do que tenho como sangue e, disseram-me, coração.

não tenho coração. talvez uma caixa de madeira, escura e secreta.

a Verdade és tu, aí

e eu esperando qualquer coisa próxima de ti comigo, nós, aqui.

a Verdade somos nós aqui.


disseram-me um dia que era bom amante e bom amigo mas tudo isso é somente foder com ou sem sorrisos e lume para os cigarros.

sorrio pouco.
disseram-me, então, que era único e bom mas eu não tenho um coração como aqueles que encontras no peito de qualquer homem, qualquer homem que te ame e não te foda com sorrisos, alguém sem sorrisos e de luz apagada, íntima.
sei, mesmo assim, que nos olhávamos nos olhos e não sentíamos vergonha e não ríamos.

já não éramos crianças.

eu, dentro de ti, sempre fui pouco mais que um homem perdido à procura do coração junto aos cigarros.


assim, nessa distância citadina, respondias-me sem uma palavra que fosse que me tornasse real
no meio de tanta chuva e confusão em Novembro e que posso pedir-te que não apenas que me
respondas, até não me importo se não existir contigo outra vez e não olho se alguém te agarrar
e amar. peço-te uma palavra sólida que me dê corpo real nesta comédia.

ofereço-te duas. peço-te uma.
porque eu nunca soube o que era que trazia atrás das costelas e preferi sempre olhar-te os olhos
e atrapalhar-me no peito, à procura de lume para o coração.



palavras de joão silveira

23/11/2006

CALLEMA




callema
Cooperativa Literária - 7 de Julho 2006, Cafetaria Continental, Lisboa.
membros fundadores: Rui Alberto, Hugo Milhanas Machado, M. Tiago Paixão, Nuno Silva e Ilídio J.B. Vasco.


programa:
devolver a literatura à voz, à mão, ao bolso, ao debate, à rua. resgatá-la da dependência cristalizada, do sono a que foi conduzida: uma literatura muda, uma literatura que não é Hoje. e esse Hoje é Hoje, está aqui.

projecto:
promover uma actividade (atitude) editorial independente, alternativa - não se leia aqui a recusa a um mercado central, social e culturalmente instalado, lugar privilegiado para a promoção desse mesmo debate -, a exposição literária na via pública, o encontro do Leitor com o texto, com a Obra: perfomances, conversas, exposições, diálogo, diálogo com as outras artes.

actividade, vigilância, disponibilidade.

estabelecimento de plataformas de colaboração com outros colectivos culturais: Respigarte, Sombra do Amor Edições.

a revista Callema, semestral, vozeamento imediato da Cooperativa Literária.

a literatura, um compromisso.
Cooperativa Literária

Calema: Fenómeno natural da costa ocidental africana, caracterizado por grandes vagas de mar. A ondulação forma-se no alto-mar e a ressaca origina correntes muito fortes que, dirigindo-se para a costa, rebentam estrondosamente, provocando grandes estragos.
(Depois apeteceu-nos dobrar o l, para ver se causavamos mais estragos).

- do Editorial.

Já está disponível o número 01 de Callema – Publicação Semestral da Cooperativa Literária, com o título: Sob o Signo do Desejo.

Sobre a nossa maneira de trabalhar digo apenas que somos curiosos profissionais. Não temos nem procuramos dar respostas. Esse é outro dos trabalhos do leitor.

– do Editorial.

A revista encontra-se dividida em sete secções: Ensaio (texto dramático), Humpty-Dumpty (reportagem), Lugar da Mancha (prosa), Post Scriptum (ensaio), Syllepsis (poesia), Câmara (crítica) e Satyr (texto humorístico).

Dirigida por M. Tiago Paixão e contando com o trabalho editorial de Ilídio J. B. Vasco, Rui Alberto e Hugo Milhanas Machado, Callema publica, e publicará, apenas nas suas páginas trabalhos inéditos no nosso país. Deste número destacaremos aqui os seguintes temas: Camões transformado e re-montado: o caso de Herberto Hélder, por Rui Torres, Doutor em Literatura Portuguesa e Brasileira pela University of North Carolina at Chapel Hill, E.U.A.; Notas para uma aproximação à escultura de Ângelo de Sousa, por Emília Pinto de Almeida; Highway to Heaven, conjunto de poemas inéditos, pela nossa convidada especial – Yolanda Castaño.

Sobre Yolanda Castaño, algumas palavras de Hugo Milhanas Machado, responsável pela “reportagem”:

da literatura à música, da pintura à televisão, do enérgico contributo para a promoção da língua e do património literário galegos à difusão da novíssima literatura junto de públicos mais jovens – aqui fica, somente, isso mesmo: a sua menção e um não inocente convite ao elevar das pálpebras – como por certo teria dito a jovem Yolanda em meados de noventa, no prólogo da sua aventura, do seu cantar sob o signo do desejo.



A Callema não tem partido político nem religião, não tem patrocinadores ou apoios institucionais, mas não nos sentimos sós – dividimos este projecto convosco. Não queremos com isto dizer que somos independentes, porque dependemos de alguns vícios... enfim, coisas próprias da condição humana... a cada um a sua história...
– do Editorial.


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callema


O portal LX Jovem fez a cobertura do lançamento. Ver reportagem aqui

22/10/2006

ESTILHAÇOS DO ESPELHO DE NARCISO

estilhaços do espelho de Narciso - III estilhaço



quis o tempo do teu corpo sentir ausência

na longitude da matéria quis antes desvanecer
perante o areal perante a excitação de um último
copo de vinho seduzido nos teus olhos


nem só de amor se enchem os pulmões da terra
que importa se o dia nasceu já velho e chovia
naquela memória de homens solitários vivendo
do mar do seu eterno perdão
da morte domesticada na aurora da vida
dos beijos dos olhares fantasiosos
descolorados nas letras ensinadas ao pecado


ouve os ruídos que circulam no teu sangue
despedindo-se dos barcos que transportavam
o sonho obssessivo da melancolia

deixa viver a metáfora que carregas a ilusão
da paixão pelo mar pela vida pelo prazer
deixa o outono despertar mais uma vez sentindo
a dor em cada poro da nossa pele em cada
gota de poesia sente-se o grito



ouve ouve houve por fim o erguer do teu ser és
tudo aquilo que um dia se escreverá



palavras de Rui Alberto
inédito, 2006