22/10/2006

ESTILHAÇOS DO ESPELHO DE NARCISO

estilhaços do espelho de Narciso - III estilhaço



quis o tempo do teu corpo sentir ausência

na longitude da matéria quis antes desvanecer
perante o areal perante a excitação de um último
copo de vinho seduzido nos teus olhos


nem só de amor se enchem os pulmões da terra
que importa se o dia nasceu já velho e chovia
naquela memória de homens solitários vivendo
do mar do seu eterno perdão
da morte domesticada na aurora da vida
dos beijos dos olhares fantasiosos
descolorados nas letras ensinadas ao pecado


ouve os ruídos que circulam no teu sangue
despedindo-se dos barcos que transportavam
o sonho obssessivo da melancolia

deixa viver a metáfora que carregas a ilusão
da paixão pelo mar pela vida pelo prazer
deixa o outono despertar mais uma vez sentindo
a dor em cada poro da nossa pele em cada
gota de poesia sente-se o grito



ouve ouve houve por fim o erguer do teu ser és
tudo aquilo que um dia se escreverá



palavras de Rui Alberto
inédito, 2006