27/03/2007

D. Quijote segundo Ana Sophia Pereira

ao amigo hugo milhanas machado


poema para d.quijote de la mancha de miguel de cervantes

morríamos nessa cidade e o nosso tempo era já
um outro tempo era forçosamente o desejar e o
indelével recordar de um outro tempo
triste e irremediavelmente aquém e além da nossa
presença no mundo.
fugíamos. pela noite pelos silêncios das casas
os homens e a cidade dormindo talvez para
jamais acordar – porque impossível era também a vigília
e o adormecer
e em cada palavra a invenção de um mar
e em cada novo mar um novo homem.

diziam-nos impraticável o nosso verbo
inverosímil a curva em nossas bocas

e acabámos morrendo com uma pérola no peito a fazer de azul.

in "quatro poemas em terceiras bemóis", POEMA EM FORMA DE NUVEM, 2005
Hugo Milhanas Machado