20/09/2011

Sobre perder alguém...
(Correndo o risco de parecer o José Luís Peixoto, sempre a falar da morte do seu Pai, aqui vai...)

A morte de alguém que nos é muito querido é um tema muito debatido e recorrente na nossa sociedade, acredito que pela sua profundidade, pela dor e tristeza que traz e consequente crescimento que isso implica. Mexe com as pessoas no seu mais ínfimo átomo.


Todos os dias vemos testemunhos e presenciamos alguém que perdeu outra pessoa: uma mãe, um irmão, um filho, um grande amigo, um cão, um grande amor, não tem relevância o parentesco.

Está presente quer seja nas nossas séries preferidas, no cinema, nos livros que nos aconselham a ler, ou num amigo que o vive nesse momento... (Confesso que só me apercebi disto, com profundidade, há dois anos, pelo menos só me toca no meu mais intimo desde então. Talvez até essa altura eu fosse muito mais insensível e egoísta do que sou hoje e nunca tinha sentido verdadeiramente essa empatia.)

Por norma, quando esta situação é retratada na ficção é sempre muito chocante para quem a vive, muito dolorosa e/ou trágica, ou porque a pessoa que morreu era tão nova, ou morreu de forma tão repentina, ou então já lutava contra uma doença há tanto tempo e era melhor assim.  (Desenganem-se, NUNCA é melhor assim.)
Mas com o passar do tempo, esses sentimentos todos desvanecem, as perguntas são respondidas e as personagens passam a lembrar os seus entes queridos com saudosismo, ternura e um rasgo de um sorriso, enfim, de uma forma positiva.
Numa ou noutra altura da nossa vida, foi-nos dito que o tempo cura todos os males. Dizem eles. Dizem. 
Há alguma verdade nisso.

Perdi o meu Pai faz quase dois anos. 
Perdi o meu Pai e ele era A minha Pessoa. Ainda não sei lembra-lo apenas de uma forma positiva, com um sorriso e sem qualquer mágoa.


O meu Pai era A minha Pessoa, foi aquele que amou sempre e sem restrições, aquele que independentemente das decisões que eu tomasse, mesmo quando se tratava de asneiras, - e essas foram mais que aquelas que eu desejaria - ou das oportunidades ou problemas que me apareciam pela frente, ele estava lá, sempre, para me apoiar e me ajudar a ver o caminho que se ia formando à minha frente. Umas vezes fazendo me sentir muito bem, outras nem por isso, mas tanto fazia - sei-o hoje - se me dava a mão e ia comigo ou se me dava um empurrãozinho nas costas para me fazer a dar esses passos, ele era A minha Pessoa, e fazia-o com Amor e convicção de que era Pai. 
Foi dele que herdei muitos dos meus gosto e personalidade, muito me amou e me ensinou e não há, literalmente, um dia que passe que não me lembre do meu Pai, nem do quanto o amo de volta e da falta que ainda me faz. 
Lembro-me dele naquele Verão em que me ensinou a nadar. Eu atirava-me para dentro de água para os seus braços e dava aos pés empoleirada nos seus ombros. Depois veio a parte difícil, dar aos braços e aos pés, enquanto flutuava, sem engolir água, tudo ao mesmo tempo. Ele orgulhava-se. Pelo fim já me deixava fazê-lo sozinha, mas sempre com os olhos postos em mim. (Às vezes penso que mudou o cenário, mudou a situação, mas ainda acontece assim)
Lembro o quanto gostávamos das conversas que tínhamos pela madrugada fora, e os seus hábitos, o seu feitio, a maneira como se sentava no sofá, a mania que tinha de me puxar os dedos dos pés sempre que me apanhava a jeito, como quem diz "gosto de ti, filha", mas sem palavras (apesar de na altura detestar que o fizesse, especialmente no Inverno quando tinha os pés mais gelados, sinto falta). 
Desenho mentalmente o seu rosto, os seus olhos e nariz - e os meus que são tão parecidos com os dele... 
É verdade que o tempo cura, relembro muitas coisas que vivi com o meu Pai - como o faço agora, enquanto escrevo estas palavras, e já o faço quase sem ficar com um nó na garganta, às vezes.

Julgava que era impossível alguma vez viver sem o meu Pai, mas a verdade é que todos nós, eu e os dele, aprendemos, de alguma maneira, a viver sem ele. Cresci muito neste tempo que passou sem ele, e, também com o passar do tempo, a minha família ganhou uma nova dinâmica e uma uma nova intimidade da qual até gosto. Mas sempre que posso imagino-o presente, o seu dedo na minha vida actual, a sua herança. Tento perceber as palavras que me diria quando me vejo confusa nalgum momento. Gostava de ainda poder ligar-lhe a perguntar que lugares devia conhecer, que livros devia ler ou como cozinhar aquele tipo de peixe.

Até aqui, nada de novo, mantemos próximos aqueles que amamos e nos amam, mesmo após a sua morte e com o tempo já nem choramos muito ao fazê-lo. 
O que não falam nos filmes, nas séries nem nos livros, é que as dores que desvanecem vêm dar espaço a novas dores que se criam de repente e sem aviso. Tão ou mais lancinantes daquelas que já tínhamos como saradas.
E de repente cais-nos uma lágrima porque algo tão bom aconteceu e ele não está aqui para gozar essa felicidade comigo.
Hoje dói-me que o meu Pai não esteja cá para ver a minha vida actual, na qual sou feliz, que não possa gozar do orgulho que sentia por nós, nem ajudar nos meus projectos profissionais presentes, que já não beije a minha Mãe todas as noites, nem me espere a mim e ao meu irmão ao chegar da praia, que não tenha chegado a ser Avô e que os futuros (e hipotéticos) netos não o conheçam. 

O meu Pai ainda é A minha Pessoa. (Tenho mesmo muitas saudades do meu Pai). Há dias em que não acredito que haja Tempo suficiente no Mundo que as cure.

3 comentários:

  1. Olá, tudo bem contigo Sophia? me chamo rodrigo, e encontrei seu blog por acaso, me apaixonei por sua maneira de escrever, senti um aperto no peito quando li este texto.. não consigo me imaginar sem a presença de pai, que representa uma figura tão forte e importante na minha vida. Se você não se importar, passarei sempre por aqui.

    Fica com Deus, beijos.

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  2. Gostei muito do posts. Parabéns pelo blog. Divulgue os links do seu blog no http://maislinksbr.blogspot.com/ Vai ajudar a divulga-lo.

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  3. Minha querida... Fiquei comovida com o teu texto... Um dia hei-de sentir o que aqui contas, apesar de não o desejar, mas enquanto não o sinto, sinto-me grata por ainda ter aqueles que me viram nascer e crescer. Ambas sabemos o que é essa sensação de perda e tu mais do que eu. Só te desejo o bem e tenho a certeza que isso já o tens e hás-de ter sempre. Tens pelo menos dois Amigos a guiarem-te... ;) Um beijo*

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