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12/02/2008

I may be skin and bone



Them unwrap me hand and foot
The big strip tease.
Gentlemen, ladies

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

Nevertheless, I am the same, identical woman.


sylvia plath, lady lazarus




model - silvia (not plath)
filme kodak TMax 400
papel ilford multigrade RC

27/03/2007

D. Quijote segundo Ana Sophia Pereira

ao amigo hugo milhanas machado


poema para d.quijote de la mancha de miguel de cervantes

morríamos nessa cidade e o nosso tempo era já
um outro tempo era forçosamente o desejar e o
indelével recordar de um outro tempo
triste e irremediavelmente aquém e além da nossa
presença no mundo.
fugíamos. pela noite pelos silêncios das casas
os homens e a cidade dormindo talvez para
jamais acordar – porque impossível era também a vigília
e o adormecer
e em cada palavra a invenção de um mar
e em cada novo mar um novo homem.

diziam-nos impraticável o nosso verbo
inverosímil a curva em nossas bocas

e acabámos morrendo com uma pérola no peito a fazer de azul.

in "quatro poemas em terceiras bemóis", POEMA EM FORMA DE NUVEM, 2005
Hugo Milhanas Machado

01/02/2007

E ao anoitecer


E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio

e a difícil arte da melancolia

16/01/2007

Queria Ser Marinheiro

queria ser marinheiro correr mundo
com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras
a boca magoando-se na visão das viagens
levaria na bagagem a sonolenta canção dos ventos
e a infindável espera do país assustado pelas águas


al berto

25/12/2006

aprendiz de viajante





Um dia li num livro: « Viajar cura a melancolia».
Creio que, na altura, acreditei no que lia. [...]
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes - e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, presiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação. [...]
Avencei sempre, sem destino certo. [...]


Aprendiz de Viajante
in Medo, Al Berto



Modelo: Rui Alberto

Sud Express, algures muito perto do Entroncamento.

29/11/2006

27.11.2006

sabia do sentido das palavras em si
noite
é sempre noite na cidade agora que o
movimento se cristaliza
em parede de papel
o instante ou o detalhe o mesmo homem em
movimento
subterrâneo
as escadas implicam acção repetida
vezes sem conta
sem nome
todas as caras são assim agora é sempre noite
noite
repito-o e repito-te em mais um teste à minha
perseverança
esgotada
num movimento invísivel que cola a parede ao
chão e um tecto que não há




palavras de m. tiago paixão
inédito, 2006

27/11/2006

CESARINY


in memoriam Mário Cesariny de Vasconcelos. 1923-2006

ELLE - NOIR

III



nessa distância tão próxima de uma tarde fria de Inverno, nesse fogo vazio das grandes cidades,
perdidas entre pessoas e filmes, respondias-me em sinais ou suspiros perdidos.


roubo-te o espaço, roubo-te o ar e regresso a ti a cada volta e a cada volta dou-te um pouco mais do que tenho como sangue e, disseram-me, coração.

não tenho coração. talvez uma caixa de madeira, escura e secreta.

a Verdade és tu, aí

e eu esperando qualquer coisa próxima de ti comigo, nós, aqui.

a Verdade somos nós aqui.


disseram-me um dia que era bom amante e bom amigo mas tudo isso é somente foder com ou sem sorrisos e lume para os cigarros.

sorrio pouco.
disseram-me, então, que era único e bom mas eu não tenho um coração como aqueles que encontras no peito de qualquer homem, qualquer homem que te ame e não te foda com sorrisos, alguém sem sorrisos e de luz apagada, íntima.
sei, mesmo assim, que nos olhávamos nos olhos e não sentíamos vergonha e não ríamos.

já não éramos crianças.

eu, dentro de ti, sempre fui pouco mais que um homem perdido à procura do coração junto aos cigarros.


assim, nessa distância citadina, respondias-me sem uma palavra que fosse que me tornasse real
no meio de tanta chuva e confusão em Novembro e que posso pedir-te que não apenas que me
respondas, até não me importo se não existir contigo outra vez e não olho se alguém te agarrar
e amar. peço-te uma palavra sólida que me dê corpo real nesta comédia.

ofereço-te duas. peço-te uma.
porque eu nunca soube o que era que trazia atrás das costelas e preferi sempre olhar-te os olhos
e atrapalhar-me no peito, à procura de lume para o coração.



palavras de joão silveira

22/10/2006

ESTILHAÇOS DO ESPELHO DE NARCISO

estilhaços do espelho de Narciso - III estilhaço



quis o tempo do teu corpo sentir ausência

na longitude da matéria quis antes desvanecer
perante o areal perante a excitação de um último
copo de vinho seduzido nos teus olhos


nem só de amor se enchem os pulmões da terra
que importa se o dia nasceu já velho e chovia
naquela memória de homens solitários vivendo
do mar do seu eterno perdão
da morte domesticada na aurora da vida
dos beijos dos olhares fantasiosos
descolorados nas letras ensinadas ao pecado


ouve os ruídos que circulam no teu sangue
despedindo-se dos barcos que transportavam
o sonho obssessivo da melancolia

deixa viver a metáfora que carregas a ilusão
da paixão pelo mar pela vida pelo prazer
deixa o outono despertar mais uma vez sentindo
a dor em cada poro da nossa pele em cada
gota de poesia sente-se o grito



ouve ouve houve por fim o erguer do teu ser és
tudo aquilo que um dia se escreverá



palavras de Rui Alberto
inédito, 2006